Prá quem não viu, vou contar uma história de arrepiar que aconteceu comigo um dia desses.
Feliz com um vôo perfeito da decolagem até o pouso, com direito a uma enroscada digna de um preá, decidi voar mais uma vez.
Era fim de tarde, naquela hora em que sobem montanha acima aquelas bufinhas de nada, que indicam que o Moedão está doido prá virar Moedinha. Pus a vela sobre a cabeça, virei e sai correndo.
De repente, senti um peso enorme nas costas e ouvi uma voz que dizia: — Vamos lá Caveirinha, hoje nós vamos fazer um vôo duplo.
Olhei para trás e vi uma velha, mais feia que a fome, agarrada na selete.
— Que Caverinha o quê? Caveirinha é outro, eu sou o Nelsão, disse-lhe gaguejando.
— Caveirinha sim! Afinal, não estamos voando numa vela roxa? Você é o Caveirinha, não adianta tentar me enganar.
— Não é roxa, é turqueza escura, púrpura, Purple Hazel. Também não é vela, é parapa, paraca, parapente , paraglider, para qualquer coisa. Pára com isso! Gritava desesperado.
— Deixa de conversa mole e decola logo, estou loca pra fazer um vôo duplo, sinistro.
— Num posso fazer vôo duplo, sou preá! O Pattolino não deixa. Procura outro, falei gaguejando ainda mais.
E na tentativa de me livrar da velha, fui dizendo todo nome de piloto de duplo que me veio à cabeça: Bombeta, Rinaldo, Wandão, Glayssin, Alexandre e por aí vai. De nada adiantou. Ela fingiu que não ouviu.
— Vamos logo, tenho mais o que fazer! Já perdi muito tempo com você. Decola, vai!
Mal acabou de falar, puxou o tirante da esquerda. Záz. Lá estava eu com uma fechadona. Continuei a correr, tirei o tirante da mão dela, dei uma batocada de leve e a vela reabriu. Pronto, acabou, pensei. Que nada! Êta, velha insistente. Não é que ela já estava com o outro tirante na mão.E tome outra fechada, agora na direita.
Dá prá imaginar o que aconteceu. Reabertura de um lado, fechada do outro: avanço e giro. Lá estava eu correndo prá frente, pro vale, twistado, com a vela e a velha querendo voar pra trás, em direção da montanha. Tudo isso, ali, na rampa .
A velha dava mil gargalhadas. Tenebrosas gargalhadas. Quem disse que ouvir as aventuras do Monstrinho é ruim? É bom demais. Ruim é escutar as gargalhadas da velha.
Já tinha visto aquela cena antes e o final não tinha sido feliz. Disse prá mim mesmo: não posso deixar essa coisa decolar de jeito nenhum, se não vou encher a montanha, de costas.
Naquela hora, a vela descontrolada era mesmo uma 'coisa'. Cravei a mão com vontade em um dos batoques, voltei ao chão e comecei a ser arrastado pro lado da biruta dois. Como o arrasto continuou, larguei o batoque e puxei o outro.
O arrasto mudou de lado. A velha transformou-se num judoca e a rampa num tatame. Eu quicava mais que uma bola de basquete. Tomava ipons e vasaris, enquanto ia descendo a rampa rumo ao vazio, ao nada.
Duplo agora não era vôo era o esforço: parar a vela e tentar ver prá onde eu estava sendo levado.
Duas ou três vezes vi meus pés para o alto e a senti o capacete bater no chão, com vontade. Torcia prá parar logo ou prá ser jogado longe da montanha, o suficiente prá tentar usar o reserva.
Depois de dez segundos de luta, que pareceram uma eternidade, finalmente, a velha desistiu do vôo. Parei uns metros abaixo do fim da rampa e outros salvadores metros da beira do abismo. Ufa, respirei aliviado. A velha tinha desaparecido, sem dar notícia.
Foi-se, a velha. Xô, vade retro Satanás!
Desde então, passei a ser chamado pelo Pattolino de Nelsão Tremendão. E era prá menos?