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7/4/2006 - VÔO COM A VÉIA ou a razão do apelido

 

Relato de uma decolagem SINISTRA, mas bem controlada pelo Nelsão . . . .

 

VÔO COM A VÉIA ou a razão do apelido

 

Prá quem não viu, vou contar uma história de arrepiar que aconteceu comigo um dia desses.Nelsão "Tremendão"

 

Feliz com um vôo perfeito da decolagem até o pouso, com direito a uma enroscada digna de um preá, decidi voar mais uma vez.

 

Era fim de tarde, naquela hora em que sobem montanha acima aquelas bufinhas de nada, que indicam que o Moedão está doido prá virar Moedinha. Pus a vela sobre a cabeça, virei e sai correndo.

 

De repente, senti um peso enorme nas costas e ouvi uma voz que dizia: — Vamos lá Caveirinha, hoje nós vamos fazer um vôo duplo.

 

Olhei para trás e vi uma velha, mais feia que a fome, agarrada na selete.

 

 — Que Caverinha o quê? Caveirinha é outro, eu sou o Nelsão, disse-lhe gaguejando.

 

 

 — Caveirinha sim! Afinal, não estamos voando numa vela roxa? Você é o Caveirinha, não adianta tentar me enganar.

 

 — Não é roxa, é turqueza escura, púrpura, Purple Hazel. Também não é vela, é parapa, paraca, parapente , paraglider, para qualquer coisa. Pára com isso! Gritava desesperado.

 

 — Deixa de conversa mole e decola logo, estou loca pra fazer um vôo duplo, sinistro.

 

 — Num posso fazer vôo duplo, sou preá! O Pattolino não deixa. Procura outro, falei gaguejando ainda mais.

 

E na tentativa de me livrar da velha, fui dizendo todo nome de piloto de duplo que me veio à cabeça: Bombeta, Rinaldo, Wandão, Glayssin, Alexandre e por aí vai. De nada adiantou. Ela fingiu que não ouviu.

 

 — Vamos logo, tenho mais o que fazer! Já perdi muito tempo com você. Decola, vai!

 

Mal acabou de falar, puxou o tirante da esquerda. Záz. Lá estava eu com uma fechadona. Continuei a correr, tirei o tirante da mão dela, dei uma batocada de leve e a vela reabriu.  Pronto, acabou, pensei. Que nada! Êta, velha insistente. Não é que ela já estava com o outro tirante na mão.E tome outra fechada, agora na direita.

 

Dá prá imaginar o que aconteceu. Reabertura de um lado, fechada do outro: avanço e giro. Lá estava eu correndo prá frente, pro vale, twistado, com a vela e a velha querendo voar pra trás, em direção da montanha. Tudo isso, ali, na rampa .

 

A velha dava mil gargalhadas. Tenebrosas gargalhadas. Quem disse que ouvir as aventuras do Monstrinho é ruim? É bom demais. Ruim é escutar as gargalhadas da velha.

 

Já tinha visto aquela cena antes e o final não tinha sido feliz. Disse prá mim mesmo: não posso deixar essa coisa decolar de jeito nenhum, se não vou encher a montanha, de costas.

 

Naquela hora, a vela descontrolada era mesmo uma 'coisa'. Cravei a mão com vontade em um dos batoques, voltei ao chão e comecei a ser arrastado pro lado da biruta dois. Como o arrasto continuou, larguei o batoque e puxei o outro.

 

O arrasto mudou de lado.  A velha transformou-se num judoca e a rampa num tatame. Eu quicava mais que uma bola de basquete. Tomava ipons e vasaris, enquanto ia descendo a rampa rumo ao vazio, ao nada.

 

Duplo agora não era vôo era o esforço: parar a vela e tentar ver prá onde eu estava sendo levado.

 

Duas ou três vezes vi meus pés para o alto e a senti o capacete bater no chão, com vontade. Torcia prá parar logo ou prá ser jogado longe da montanha, o suficiente prá tentar usar o reserva.

 

Depois de dez segundos de luta, que pareceram uma eternidade, finalmente, a velha desistiu do vôo. Parei uns metros abaixo do fim da rampa e outros salvadores metros da beira do abismo. Ufa, respirei aliviado. A velha tinha desaparecido, sem dar notícia.

 

Foi-se, a velha. Xô, vade retro Satanás!

 

Desde então, passei a ser chamado pelo Pattolino de Nelsão Tremendão. E era prá menos?

 

Por: Nelsão (Tremendão ? Tremendão, é Dona Neném. Que me perdoe)



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