Bom em primeiro lugar peço desculpas pela demora de relato, não pela importância e sim pelas outras alegrias que tive ( nascimento de minha filha).
Buscar objetivos nem sempre é fácil, dar sangue para conquistá-los as vezes é preciso e isso eu as vezes faço.
Então digo que esse recorde foi conquistado não somente no dia 25/09/2004 e sim nas inúmeras roubadas em que me meti. Isso fica p uma próxima vez.
Como todos sabem minha análise de vôo vem sempre lá de cima, acredito em qualquer dia, desde que tenha condições de vôo é lógico, claro que não vou me arriscar em um dia que a pratica do vôo seja perigosa, não confundam euforia com imprudência.
Mais ou menos 10:45 e com um vento de aproximadamente 20km/h, já tendo como referência o Michel que creio eu já alcançava uns 750m acima da rampa, resolvi decolar após uma rápida conversa com o Kotoco, PH, Jadilson e outros pilotos que já se encontravam na rampa. Decolei sem muitas pretensões, achando ser muito cedo mas com o objetivo de me manter no ar até o horário de melhor vôo e ganhar alguns kms a mais.
Tudo muito difícil no início, com o vento sudeste quase entrando atravessado na rampa tentei me manter no lift, que estava muito turbulento pelas bolhinhas que soltava, e quase perdendo o vôo ou desistindo pela turbulência, consegui encaixar numa térmica falhada que derivando muito p trás e bem baixo ainda com alto risco de sair da mesma e ficar no rotor, resolvi encarar e com cuidado para não cair na descendente na parte de trás da térmica tendo assim um pouco mais de segurança atravessando o moedão com apenas 180mts, porem dentro da térmica, mal cheguei aos 750mts e muita turbulência a ponto do meu gps desligar, motivo pelo qual o início do vôo esta sem marcação de data e hora só sendo registrado as coordenadas. Fiz minha primeira tirada simplesmente p sair da turbulência, logo depois achando outra em cima do japonês, que me mandou a uns 650mts acima da rampa, lembrei do nosso amigo PH que várias vezes me falava p Ter calma em certas horas e esperar p fazer novas tiradas e assim só na deriva chegando até aranhas, mais ou menos 10km.
Com um medo danado de perder o vôo pelo horário e vendo formações a uns 600mts a minha esquerda e 800mts a minha direita, só tive a opção de voar no azul, mas como sempre tendo sorte isso não importou muito, pois até ai, tudo não passava de mais uma roubadinha rotineira.
Preocupado apenas em manter a altura e conversando com o meu amigo Jadilson (asa ), que me informou que havia resgate e cerveja em Brumadinho, comecei a tocar o vôo p lá, achando que o vôo não iria render muito. Errando muito e perdendo altura, ainda não tinha acertado a deriva da térmica e a direção certa do vento, que a essa altura no moedinha já tinha aumentado a velocidade e esqueceram de me avisar graças a Deus. Aproximando de Brumadinho e ficando muito baixo, comecei a procurar por um pouso mais próximo da cidade. Procurando por algum sinal de ascendente, galho, urubu, coco, sacola, borboleta, qualquer coisa que me mostrasse uma termiquinha, vi a esquerda da cidade alguns urubus que subiam “numa velocidade”, ao entrar na térmica começar a dar uns bordos percebi que era grande e forte subindo em uma grande área, resolvi passar Brumadinho desistir da cerveja e resgate e seguir em frente.
A térmica derivava p cima da represa da copasa e em volta da represa existe muita mata, e logo depois a cordilheira de Igarapé, sendo assim teria que ganhar muita altura p atravessá-la caso contrário seria novamente mais uma roubada em que me meteria novamente, porém mais uma vez errei e logo após ganhar altura de 1450mts tendo que optar em encostar na cordilheira de Igarapé ou mandar p dentro do vale, optei o vale, a descendente forte me deixou dentro da represa e perto da água. Chegando muito baixo perto de Rio Manso e em todas as direções as descendentes estavam forte exceto em cima da água e p o lado da mata, na minha cabeça veio um monte de coisas, mas sabia que alguma coisa estava para acontecer ali, cada vez mais baixo e tendo que sair de cima da água comecei a ir para a margem da represa foi quando me deparei com minha vela andando a 10km/h e tendo a mata na parte de trás não podendo mandar um caudal, já estava indo p a margem e pronto p garantir o pouso pois lá o desnível é menor que no japonês, não podendo confiar muito na altitude que o varion me mostrava, passei a pilotar no visual mesmo, comecei a perceber muitos urubus se dirigindo p uma área entre a água e uma vala dentro da mata, sei que não seria favorável a térmicas, mesmo baixo resolvi acompanhar os urubus, quando cheguei perto, eles se mandaram, parei de descer e senti que o ciclo iria começar de novo. Foi quando veio chegando aquele gavião preto com as asas brancas por baixo que eu gosto de chamar de “Aba Larga” chegou de mansinho e junto comigo foi dando um bordo e contra vento ele começou a seguir em frente e subir, subir até chegar em mais ou menos em uma térmica de uns 4,5ms e ele só me abandonou quando eu estava a uns 1300mts novamente e que me levou a 42km. Nessa térmica me mantive por alguns kms e nessa hora meu rádio tinha virado pai de santo, só recebia e não transmitia mais p a rampa estava escutando a galera falar e até combinando churrasco na toca. Ainda era 12:30, pouco antes recebi a última transmissão, o Kotoco me disse que se eu não batesse o recorde não era p eu voltar na rampa, foi quando percebi que poderia pintar o recorde ou apanhar quando voltasse.
Tratei de me concentrar, coisa que nem sempre faço, pois vôo muito desconcentrado, atendendo telefone, passando mensagens, trocando pilhas e pegando objetos na bolsa da selete na parte de trás, fugindo um pouco as regra do vôo, e regras são as coisas que mais me incomodam, principalmente no vôo livre.
Após chegar perto do fim da cordilheira de Igarapé percebi que havia conversão em cima da mesma, tinha uma fuça bem deitada virada de oeste p leste de um lado e outra também muito deitada de leste p oeste do outro, e assim partindo p a crista da cordilheira, chegando lá foi só alegria bati em uma de 5ms e chegando a 1800m até então era o teto máximo. Já tendo a minha direita Itaúna 60km da rampa e isso a 13:30, foi quando entrei em uma descendente de -6,5, lembrei do nosso amigo Júlio Garça, que me falava sobre as descendentes, é virar 90º em uma direção, foi o que eu fiz ai a descendente melhorou p uns –6ms, acelerado até no talo e sentindo o chão chegando olhei p todos os lados e procurando novamente um pouso mas com esperança de subir novamente, sei que ainda estava alto mas descendo a –6ms às vezes –5ms. O que vc iria pensar,? Pouso! Só que do jeito que desci subi novamente “numa velocidade” bati numa de +7,5ms com pico de +8.0ms. De Itaúna até a chegada de Divinópolis foi só maravilha, o vôo correu normalmente subindo bem e fazendo algumas tiradas e novamente pegando novas térmicas até que cheguei no teto de 2300mts acima da rampa.
Chegando um pouquinho antes de Divinópolis comecei a perceber um ciclo que começava, eram várias fumaças e algumas viradas formando um triângulo e logo depois uma coluna fraca de fumaça subindo e isso repetia em vários pontos. Bom era 15:00 andando a 55 / 60km/h e subindo a 2 / 3ms a uma altura de 2100m, a 95km da serra e já meu novo recorde, com uma formação que cobria toda a cidade de Divinópolis, novamente me veio a cabeça que aquele dia seria novamente quebrado o recorde da serra da moeda.
Inacreditavelmente com essa condição e passando sustentado debaixo da formação, fiquei ansioso e comecei acelerar o vôo sem era nem bera. Não andei mais que 6km e perdi 1350m chegando a somente 700mts acima da rampa, p quem acha que 700m ainda e muito ok, mas eu estava voando a 2300mts, vi meu sonho escorregando literalmente pelas mãos, entrando em desespero vendo novamente chegar o chão e já a 102km, só me vinha na cabeça quando seria a próxima vez em que eu teria novamente a oportunidade dessa, 15:20, 102km, andando a 60kmh sem acelerar, quando, quando. Mais uma vez me veio na cabeça o Júlio Garça que sempre pede a Deus umas coisinhas simples, como uma termiquinha de 5m ou 6m constante ou para não ser preá.
Fui mais tranqüilo e pedi só uma termiquinha, não importava a intensidade, mal acabei de fechar a boca e o varion voltou a apitar bem sorrateiro, tímido todo, ganhei novamente mais 500mts e voltei novamente a ficar ansioso e novamente despenquei mais 800mts, já estava agora a 112km, talvez com o caudal poderia dar os 120,8km do Lélio que eu mesmo marquei quando passamos no lugar em que ele pousou e não foi homologado, por alguns motivos que não vêem ao caso. Novamente voltei p Deus e pedi só mais uma te prometo que hoje eu não te peço mais nada, e novamente ele apitou mansinho e constante, desta vez falei p ele que não mais erraria, dito e feito. Com 950mts acima da rampa, andando a 45km/h e ainda 15:34,e 116km da rampa fiz o de praxe, tirei o capacete coloquei-o no braço soltei os batoques e liguei p o Jadilson e relatei o fato mesmo com medo de descer num full e perder tudo, brincadeira.
Bom já a 125km e tendo a minha frente uma sombra imensa tendo a minha direita a estrada e a esquerda uma imensa roubada, com vontade de aumentar um pouco mais o recorde joguei um pouco p esquerda e deixei o pau quebrar, já tinha 130km e resolvi abandonar o vôo mesmo passando em uma térmica de 3ms. Com a galera me ligando a todo momento e com a cidade de Pedra de Indaiá pela frente, mandei um pouco para direita e quando me aproximei do asfalto para procurar o pouso o meu amigo Lélio me ligou mais uma vez e falou p mandar tudo que eu pudesse p não me arrepender depois. Bão menino eu cumpri o dito.
Depois do asfalto já no final da sombra tinha uma erosão e resolvi pagar p ver, iria andar mais um pouco, mas como já estou acostumado virei e falei. Fazer o que! Eram 16:25h e achei uma térmica de 1ms no máximo 1,5ms fui enroscando com uma deriva forte e foi só ai que comecei acertar o vôo e saber onde estava a deriva, pois até então achava que a deriva estava menor, acho que era o motivo que vinha errando tanto, quando eu caia da térmica eu caia na parte da frente e voltava a subir. Bom firmei a mão e toda hora que eu sai da térmica achando que tinha acabado novamente voltava a acertá-la mais na frente. Já tranqüilo com o recorde e muito feliz, estava engraçado que toda vez que olhava o gps estava marcando 10km a mais. Dentro desta última térmica fui procurando lugar em que eu andaria menos, tinha a minha esquerda a uns 15km Santo Antônio do Monte e sabia que a minha frente tinha Lagoa da Prata e a esquerda Pains e Arcos (Cidade do Kotoco), porem o que aconteceu foi que essa térmica se manteve e melhor a 16:40 ela começou a subir a 2,3ms formando uma base pequena e constante e a 150km, já perto da base e cansado, pois já eram quase 6h de vôo. Avistei arcos a uns 15km um pouco a minha esquerda, pensei pousar mais longe um pouco ou ir p a cidade do “cumpanheiro”, mas Arcos estava um pouco a contra vento pensei que não iria chegar, mas o fato de ter um ônibus ou mesmo dormir em Arcos, resolvi abandonar a térmica e partir p lá, só pensava como seria se desse p chegar dentro da cidade, a farra que eu iria fazer.
Pois é. Chegando em Arcos e alto uns 600ms do chão peguei meu apito e o barulho começou, sei que o pessoal de Arcos sabe que não era ET e possivelmente seria o Kotoco, mas era o baianinho que infelizmente atrapalharia o sonho do Kotoco, passei por toda cidade e chegando ainda alto perto da Puc onde pousei. Fui advertido pelo guarda que não poderia pousar ali, virei p o ele e prometi que não pousaria ali de novo, acho que ele não entendeu muito minha ironia.
Tentei passar o que senti, não p me glorificar ou coisa parecida, nem mesmo p mostrar a dificuldade de um vôo, mas sim p mostrar que todos nós somos capazes de alcançar nossos objetivos. Mostrar que na Serra da Moeda é um lugar como qualquer outro do Brasil que da bons vôos e vôos longos, e quebrar o tabu que aqui não rola vôo de gente grande.
Creio eu que esse recorde não irá demorar a cair novamente, pois agora acredito que a técnica dos pilotos da Serra da Moeda tem aumentado muito e a qualidade das velas também, facilitando assim vôos maiores e quem sabe buscarmos o recorde mineiro. Acho que é só acreditarmos.
Aos alunos ou novatos: A dois anos e meio quando entrei p vôo e olhava os pilotos das antigas conversando, pensava. Será que algum dia eu chegarei a voar como eles? Senti que não, pois cada um tem seu próprio estilo de vôo, suas manhas, suas técnicas, manias, pensamentos. Me restava então achar o meu próprio estilo, sabendo que nessa imensidão de incógnitas há vários estilos de vôo, não existindo uma fórmula p ser um bom voador. Todos nós podemos alcançar nossos objetivos, seja ele um recorde de 164,1km, seja ele simplesmente tirar o pé do chão e sentir a emoção do vôo. Uma coisa temos que procurar, é o respeito pelo que escolhemos e isso era a única coisa que queria. O respeito dos voadores.
Fiquem com Deus e que ele os abençoe a cada dia, principalmente nos dias em que estiverem mais perto dele.