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23/8/2008 - Relato Record Mineiro - 270,1 km Pratinha - Por Luciano Bahiano

Detalhes do Vôo :

http://www.xcbrasil.org/modules.php?name=leonardo&op=show_flight&flightID=9639

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Senta que lá vem a História

500km em 3 vôos

Como sempre as histórias acontecem comigo, não sei por quê!

Após dois vôos na semana passada. Um de 108 e outro de 126km, isso contando só a parte que fui em direção a Santos Dumond, porque nesse vôo ainda voltei uns 5km até Barbacena após o vento virar. Porém acho melhor relatar esse vôo em outro dia.

No sábado iria trabalhar, estava bem chateado e cheio de coceira, ai com o meu azar é que começou a minha sorte.

O carro quebrou o burrinho de freio e não consegui ir para Igarapé onde estou trabalhando. Resolvi ir para o serra já que o dia iria estar perdido. Falei para o mecânico para isolar a roda traseira e fui com o freio meio capenga mesmo.

Cheguei à serra por volta de 10h e vi alguns alunos voando e com um pouco de altura. Pensei na minha cachola. Já ta na hora de me mandar porque conheço esse vento do moedinha e sei que ele é danado para aumentar e cancelar a decolagem, e não da mais para arriscar.

Como sempre cumprimentei a maioria que estava na rampa e tentei botar fogo na turma para que eu tivesse mais uns para irmos para o cross, chamei o Hercules (cumpanheiro que me acompanhou ano passado fazendo 147), e sem querer fiz o filhinho dele chorar com minha carinha, e nem parece com a do Mand, não sei por que o muleque não pode nem ouvir falar em vatapá, que ele chora. Porém ele estava inscrito no campeonato e resolveu ficar. Passei pelo Paulo bergamo, mas sabia que ele não iria animar a se juntar, ainda mais naquela ventaca.

Me preparei como sempre na maior correria e pelo menos desta vez troquei as pilhas do gps na hora de decolar.

Vento de 35km e calada de 10km nada muito arriscado. Puxei a vela e no meio do caminho resolvi abortar, e fiquei numa indecisão danada, e que sempre falo para todos não terem isso, sempre falo, indecisão é a coisa mais problemática que pode acontecer. A vela começou a subir e andar para traz, cai no chão, mas não esqueci dos ensinamentos do grande professor Concessio, que sempre me dizia, "nunca deixe de pilotar", mesmo de cabeça para baixo, e comecei a voar para traz em direção ao banheiro, e comecei a subir e quase bati as costas no banheiro, (gostaria de agradecer aqueles que por força maior empurraram o banheiro alguns metros para frente, Inácio, Carol e outros mais).

Perrengue puro, mas deu certo fui de ré até perto do restaurante, acelerei um pouco estabilizei a vela e fui andando para frente a 2kmh até perto da biruta 2. Quando cheguei lá tomei uma cacetada de uns 40%, e umas porradinhas extras, e subindo, era o que interessava, tentei ainda voltar para o moedinha, mas o vento acelerou e atravessei baixo, uns 300m. Antes mesmo de deixar perder altura já tinha avistado uma térmica que iria garantir a saída do vôo. Saída que é sempre muito difícil. Então o meu pensamento era somente ficar alto e não me preocupar com os kms até meio dia, pois decolei por volta de 10:40. É, mas não foi isso que aconteceu, o vento soprando rápido e subindo sempre a 3ms a coisa deu ares de vôo longo.

Então sem perceber estava chegando a Brumadinho, já na segunda ou terceira térmica e a coisa começou a render e atravessei a 381 com bastante altura e debaixo de uma esteira que ia até quase no final da cordilheira de Igarapé.

Passei por Itatiaiuçu, e foi meu primeiro perrengue, cheguei a ficar baixo porque estava em cima de uma serra que era o final da cordilheira de Igarapé, sabia que se sobrevivesse nessa hora daí para frente seria mais fácil.

Então comecei a procurar por Itauna e não avistava, foi quando cheguei em cima de Carmo do Cajurú e me assustei, não podia ser, era cedo de mais. É, era mesmo Carmo do Cajurú, acho que ainda não era meio dia.

Para se ter uma idéia quando bati o recorde da Serra da Moeda estava a 70km as 2h da tarde e era 12h e pouco e já estava a 80km, cheguei a não acreditar.

Bom, mas nessa hora bateu a sozim fobia e a necessidade de contar para alguém o que estava acontecendo, já que o rádio que o Laércio me emprestou tinha acabado a pilha.

O meu telefone que uso diariamente que é da claro não estava pegando, mas tenho dois de cartão sem crédito só para receber. Ai lembrei que meu amigo Júlio Garça estava trabalhando e com certeza não poderia ir a serra, então como sabia que ele não iria voar, comecei a ligar para ele, claro que a cobrar, era o único jeito, sei que enchi o saco dele, mas ele estava ficando feliz com as notícias que chegavam de meia em meia hora, e a cada telefonema era uns 20km a mais.

Fui fazendo quase a mesma rota do recorde anterior, e novamente quando cheguei a Divinópolis por volta de 12:30, dei aquela errada sem saber o que fazer momentaneamente, resolvi ligar para o Julio novamente e ver se ele tinha alguma idéia, ele me falou palavras mágicas, "caudal, caudal, e acelera", eu disse "mais", o gps nesta altura já marcava de média 65 a 70km/h e quando acelerava tudo mesmo

dava uns piques de 82km/h. Achei uma fumaça pouco para frente de Divinópolis e firmei o vôo novamente olhei no relógio e, as 13:00 no prego 120km, Geeeerrrrrrrrrrrrraaaalldo. Liguei para o Júlio de novo, blem blem blem, blem blem blem após o sinal diga o seu nome e a cidade de onde esta falando, tirim. Quase louco com a distância e o horário falei para o Júlio que o vôo estava calmo. Oh boca maldita, passei a tomar porrada de todo lado, e as térmicas bicudas com picos de 6ms, e dalhe porrada. Arrumei na selete e toquei para frente.

Voltou a ficar calmo e a andar mais ainda, e com o caminho todo formado, só precisava manter a calma e iria dar recorde da serra novamente.

Cada hora que olhava no gps o bichinho aumenta muito. Ai o Rinaldo ligou e todo mundo começou a ficar ligado no vôo, porque na serra o caldo tinha entornado e a turma já estava no buteco.

Sentia que todos já começavam a fazer contas, para calcular o vôo e saber quanto daria mais ou menos.

Mais uma vez as cidades iam passando e foi a vez de Santo Antônio do Monte e subindo na térmica que estava na cidade praticamente cheguei a Lagoa da Prata e vendo em fim o Record ser quebrado.

Liguei novamente para o Júlio blem blem blem, blem blem blem após o sinal diga o seu nome e a cidade de onde esta falando, tirim, quando falei para ele onde estava, ele começou a ficar nervoso e dizendo para me concentrar no vôo, e era isso que eu estava fazendo, me concentrando, e essa é minha forma de concentrar ou melhor achar o vôo, falando com a turma. Senti que todos estavam apreensivos, e ai o Rinaldo ligou de novo, e disse que o recorde mineiro era 223, pensei acho que vai dar.

Quando o Laércio ligou novamente, tomei um solavanco que o telefone saiu da mão, tomei uns 60% do lado direito, mão do tele, e consertei e bati na térmica de 6ms novamente e fronte e subindo e gangorrando, porrada, mais porrada e base, não muito alta 1300m da rampa, o outro recorde o teto era 2200 da rampa. Daí para frente segurei mais para não correr o risco de ter que lançar reserva e perder a oportunidade.

Comecei a ver que essa seria a chance da minha vida, pois olhava para baixo e via a fumaça correndo entre os canaviais de Lagoa da Prata e Bambui que não subia um metro se quer por vários ms e quando subia era certo, podia ir lá que a danada de 5ms pra cima me esperava, e nisso eu ia acelerando e vendo o gps aumentando os kms, começou a bater umas crises de riso que, fica difícil de relatar, só estando lá para ver, vinha do nada o tempo todo.

Então liguei novamente p o Júlio para avisar que tinha dado 200km e ele disse, "concentra caramba no vôo", e o Rinaldo ligou com uma notícia ruim, que o recorde mineiro era 238 mas não sabia direito e iria ligar para o Patolino, que me deu uma notícia que só não foi pior porque na hora que ele falou comigo eu já estava a 225km. Pois o recorde era de 253km.

E passando por uma roubada que fica a esquerda da serra de Luz, onde a poucas semanas voltávamos de Araxa eu o Júlio Garça e o Inácio, e comentei com o Inácio que se algum dia eu passasse por aquele lugar, seria por dentro da serra e seguindo um corredor que se forma.

Os telefones começaram a ficar sem sinal, mas acho que falei com o Rinaldo que já estava a 250km e a crise de riso só pegando.

Quando em uma tentativa de pegar o ciclo da frente, enfiei o pé no acelerador, e ele arrebentou, comecei a rir, pois quem vai querer acelerador andando a 70km de caudal, dei um nó passei ele por dentro do mosquetão e fui quebrando o galho, não acelerava tudo e tinha que pegar o acelerador com a mão, levar o mosquetinho até passar pelo mosquetão e ficar com meia aceleração. Começou a ficar desconfortável. Tinha hora que a vela começava a querer girar e eu tinha que frear, e em fim resolvi parar de acelerar, pois ficou incomodo, mas nem por isso as crises de riso pararam.

Bom! Hora de decisão, tinha visto que estava perto da 252 e fui tentando ir em direção a rodovia, porem estava perdendo rendimento, então tive que me conformar com a roubadaçaaaaaaaaaaaaa.

E finalmente olhei para o gps novamente marcando seus 260km, tentei ligar novamente, mas estava sem sinal e a turma teve que esperar um pouco mais até os kms finais.

Peguei mais uma térmica e perdi o último ciclo, mas nem pense que vou lamentar, porque realmente, já estava cansado e com medo de errar.

Planei os últimos kms e ainda ganhei mais 3km com 200mtrs que ganhei em uma queimada.

Pousei as 17:10 em uma fazenda que fica a 10km de onde nasce o rio São Francisco bem no meio da serra da Canastra.

Ai começou a História de verdade, dobrei a velhinha é isso mesmo, ta velhinha mesmo, botei no saco, bem dobradinha, como o pessoal da serra sabe que eu dobro (tempo de dobragem, 90s). Fui feliz para a fazenda que pousei pertinho, e pensei pago o cara 30tinha e ele me leva lá na cidade.

Cheguei à fazenda, fui aprochegando, fui vendo que só tinha cavalo e trator. O cara me tratou na casca dura, e ficou meio com medo, porque ele não me viu pousar e deve ter achado que eu era andarilho, e me falou que logo no alto de um morro tinha uma fazenda com carro moto e que eles iriam me levar na cidade rapidinho, falou que a fazenda ficava a uns 2kms dali e logo no alto do morro.

Fui eu feliz da vida, só para começar a subir, foi um km e mais uns 3 de top fraco e mais um de top forte. Não adianta, meu parapente eu não largo em lugar algum, só depois de arrancar a pele do ombro.

A noite foi caindo, caindo e eu não via nem uma luz, cheguei no alto do morro e não vi nada, ai é que percebi que o cara só queria que eu fosse embora. Nisso veio chegando umas formações de nuvens e ficou tudo preto, não se via nada, comecei a tropeçar e ter a sensação que o chão estava descendo. Subi mais um morrote e comecei ter a sensação que alguma coisa estava me seguindo, ERA MEDO mesmo. Pensei vou continuar andando e que quando eu cansar não vou ligar para o medo porque vou ter que dormir dentro da vela, vesti o macacão para que se tivesse alguma cobra no chão aquecendo na estrada e eu pisasse ela poderia morder somente o pano, fui ficando neurótico.

Quando cheguei ao último top um dos celulares deu linha, e ai acabou minha preocupação em ligar para a esposa para avisar. Sentei no chão e resolvi ficar parado, pois estava a 20km em linha reta da cidade mais próxima, e a 35km de estrada. Sentado num breu danado mas com o celular pegando comecei a agilizar resgate, infelizmente coloquei todo mundo doido, principalmente o Kotoco e o Inácio que quase foram me buscar. Então minha esposa perguntou se em Araxa tinha algum voador que poderia me pegar, o Kotoco começou a ligar para todo mundo e tentar um resgate, o Sr Neném estava com umas na cabeça e não pode ir, alguns foram para BH de medo de me ver chegar e outros fugiram, chegaram a fazer 204km p longe, né Bruninho, brincadeira.

Já na escuridão completa o Inácio me liga e pergunta se eu não tinha visto nem uma alma viva. Eu disse "graças a Deus nem viva nem morta".

Quando tudo parecia perdido e já conformado que teria que dormir ali, porque se eu andasse muito poderia correr o risco de desidratar, e iria ter que esperar até no outro dia até que uma pessoa passasse, então surge no horizonte que não é perdido um farol. Imaginei! Pode ser um carro, mas daí a dar carona vai ser osso. O neguinho foi chegando e não é que ele parou. Estava tendo uma quermesse em uma igrejinha a uns 12km dali, já era o suficiente, água, cerveja, comida.

Cheguei à quermesse tomei aquela cerveja e comi um pastel que parecia uma pizza de tão grande, Bavária geladaaaaaaaaaaaa e o forró pé de serra tocando na alta. Conversei com os caras e eles me levaram até Pratinha onde tinha exposição.

Fui para a única pousada da cidade e chamei até não querer mais. Sei que nessas pousadas a gente entra dorme e paga no outro dia, só que procurei em todos os quartos e não vi nem um aberto com chave, então vi um sem have aberto e resolvi entrar, pensei amanha eu acerto. Entrei encostei uma cama que havia a mais na porta e fui dormir.

Mais ou menos meia noite começou a bater gente na pousada pedindo quarto, imaginei esse trem não vai prestar, agorinha chega o dono do quarto. Dito e feito 2h da manha chega dois caras e uma mulher. No quarto tinha um colchão no chão. Eles empurraram a porta e perguntaram se a dona da pousada tinha me alugado o quarto porque eles já tinham pago o quarto, pedi desculpas e expliquei a situação, e a mulher me perguntou o que eu iria fazer, falei que iria para o coreto, ela ficou com dó do Baianinho e falou que iria dormir na cama de solteiro com o namorado e me deu o colchão, se é que aquilo é colchão ou edredon de tão fino, me deu também um lençol que parecia papel de seda de tão fino, fazer o que. Melhor que dormir na rua. Coloquei o colchão na entrada da pousada e toda hora chegava um perguntando se tinha quarto, e eu já respondia que não. Quando foi lá pelas 4h chegou dois motoqueiros e foi batendo a campainha até a mulher do hotel levantar, eles viram que tinha um quarto que alguém desistiu e largou a chave na porta. Na hora que a mulher abriu a porta que ficava bem na cabeceira do colchão, ela perguntou o que era aquilo, eu já respondi, não esquenta não amanha eu lhe explico tudinho. Os caras foram para o quarto e me arrumou uma colcha, pensei até amanhecer o dia eu ganho um travesseiro e até dinheiro se bobear.

Foi mais ou menos o que aconteceu após o vôo, o resto foi de costume, balaio e rampa para pegar o carro.

O vôo em si não foi muito técnico, pois foi só subir e mandar para frente o tempo inteiro, mas o resultado foi bom.

A sensação de mostrar para todo mundo que a Serra da Moeda é um lugar que dá vôo, isso realmente me deixou realizado, perceber o sentimento que cada um carrega na Serra da Moeda me deixou emocionado, e por isso hoje sei, que cada panela existente em cada lugar, não é para fechar o espaço de todos que chegam e sim alimentar os conhecimentos dos que chegam sozinhos.

E pela primeira vez na Serra percebi que todos estavam felizes, acho que uns 98% ou mais. Por um momento senti que todos queriam a mesma coisa, comemorar o recorde da Serra da Moeda e não só o recorde do Baiano.

Esse recorde é de todos, todos os que gostam do vôo na serra.

Gostaria de agradecer a todos os que me ajudaram, dos incentivos na decolagem, as mensagens e o resgate, Julio Garça, Inácio, Kotoco, Rinaldo, Laércio, Lucas Machado, Hercules e aqueles que não mencionei.

E se alguém tiver duvidando da minha História, esteja lá da próxima

vez.

Abraços a todos.

 

Por: Luciano Henrique "Bahiano"



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